A Disney está encerrando quatro canais na TV paga brasileira a partir de fevereiro de 2025, é o que informa o jornalista Ricardo Feltrin em seu canal do YouTube. A empresa norte-americana descontinuará o Disney Channel, Nat Geo, Star e FX no início do próximo ano.
Vale lembrar que em 2022 a gigante do entretenimento já havia encerrado os canais Star Life, Disney XD, Nat Geo Kids, Nat Geo Wild e Disney Junior, com isso a empresa do Mickey Mouse continuará apenas com os canais ESPN no catálogo da TV paga brasileira, mas até o núcleo de esportes tem sido cada vez mais desprezado por quem monta a programação quando se trata de eventos ao vivo, quando o Star+ foi fundado, em 2021, a ESPN passou a exibir cada vez menos jogos de campeonatos europeus, tudo para dar prioridade ao seu serviço de streaming, a situação perdura até os dias atuais, mas desta vez para priorizar o Disney+ (serviço a qual o Star+ foi “fundido” em 2024).
A movimentação da Disney indica uma tendência bem clara: a televisão fechada está mais próxima de seu fim do que se imagina. Pressionada pelo avanço da internet e pela pirataria, é difícil encontrar futuro para uma mídia esquecida.
A TV paga teve início de suas operações no Brasil nos anos 90, em mais de 30 anos de existência nunca foi hegemônica, e sempre se manteve restrita aos nichos da classe A e B, seu auge ocorreu em 2014, quando tinha quase 20 milhões de assinantes, mas hoje (2024) o total de pessoas que ainda possuem a TV paga tradicional não somam 9 milhões, ou seja, mais da metade da base instalada deixou o serviço nos últimos 10 anos.
O claro declínio pode ser explicado não só pelas crises econômicas e caos político que atormentaram o país desde 2014 (o Brasil passou por um processo de impeachment, crises financeiras e uma recente tentativa de golpe de estado, só nos últimos 10 anos), mas também pelo crescimento da concorrência de outros tipos de mídia, a internet saltou de 95 milhões de usuários para 159 milhões, a velocidade média de acesso disparou, e conteúdos novos começaram a serem criados, tanto por gigantes da mídia por seus streamings próprios (Netflix, Disney+, Paramount+, MAX…) quanto por produtores independentes no YouTube.
O que era considerado status social nos anos 90 e 2000, hoje não passa de um amontoado de canais cujo a maioria não saem do traço (zero de audiência) absoluto. O interesse por canais de nicho despencaram, um canal de culinária não precisa existir em uma TV se um conteúdo praticamente idêntico está disponível em canais no YouTube para serem assistidos a qualquer momento, e com especificidade de busca. Um canal de filme não precisa existir se as mesmas atrações estão disponíveis num streaming que possa ser acessado a qualquer hora, com a vantagem de ser pausado caso o telespectador precise ser interrompido durante a atração.
No fim das contas, é um modelo arcaico sendo substituído por uma experiência de uso superior. No entanto, não dá para afirmar que as operadoras não tentaram se atualizar, a Sky tentou vender sua TV por assinatura de canais online chamada DirecTV GO (o serviço levava o nome de uma das primeira operadoras de TV do Brasil, comprada pela Sky em 2003), hoje com o nome de Sky+, a chilena Zapping comprou a start-up Guigo TV, primeira empresa a oferecer pacotes de TV por assinatura online. Até a Claro e a Vivo atualmente possuem seus serviços de TV via internet, a Claro TV+ e o Vivo Play.
A fina ironia é que o que popularizou estes canais a classes mais baixas pela primeira vez, também será o motivo de seu fim: a pirataria.
A concorrência com caixinhas piratas e IPTV ilegais chega a ser desleal, oferecendo um preço muito mais baixo (afinal, não pagam royalties para as empresas, simplesmente roubam sinal e retransmitem) do que serviços oficiais, é difícil prever uma virada de jogo onde a TV fechada volte a dar as cartas para o mercado. Não existem dados oficiais, mas não seria surpresa se o número de pessoas que assistem TV por assinatura ilegalmente fosse maior do que o número total de pagantes do serviço legalmente.
Quem ainda mantém o serviço relevante no Brasil é o Grupo Globo e a Warner Bros. Discovery, os canais da Globosat e da TNT aparentam serem os últimos dois pilares que sustentam uma estrutura prestes a desabar. Porém até estas empresas veem a modernidade bater em sua porta, em 2024 o Premiere tem mais assinantes pela internet do que na TV paga, a Warner concentra todos os seus esforços esportivos no YouTube, e transmite futebol nos canais de filmes TNT e Space, evitando criar um canal esportivo desde que descontinuou o Esporte Interativo em 2018.
Vale lembrar que desde 2017 é possível assinar os canais pagos da Globo no pacote “+ canais” do Globoplay, para as empresas vender serviços online é mais vantajoso: não deposita % de lucro para terceiros e tem mais controle sobre as suas atrações. O foco da Disney no Disney+ e o “abandono” dos eventos ao vivo da ESPN mostram isso, vender o Disney+ é mais interessante do que ter assinantes em um pacote de TV fechada.
Para o consumidor também há vantagens, a possibilidade de assinar só o que interessa e não ter que comprar um monte de canais de forma obrigatória, além dos já citados conforto de assistir a qualquer momento e pausar conteúdo. O preço também é mais em conta do que eram os praticados pelas operadoras de TV paga ao longo do tempo, por incrível que pareça, assinar a Disney+ hoje é mais em conta do que obter um pacote de TV com ESPN em 2014.


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